A nossa RAZÃO de ser
O eterno assunto
Artigo publicado na edição de 8 de dezembro de 1937
Em todos os países celtas, germânicos, eslavos, anglo-saxônicos, que pulular extraordinário de criações literárias, de dramas, de romances, de poesias, de trabalhos de crítica, de filosofia, de história! Que movimento vertiginoso de idéias! Que vida cerebral intensíssima!...
Mas a literatura nos países latinos continua a manter as suas belas qualidades de lógica, de límpida elegância, de estilo perfeito e amplo.
Obras há que têm uma desordem touffue, uma falta de harmonia e clareza que as tornam inacessíveis a certos espíritos; há nelas meandros, labirintos impenetráveis; prestam-se a uma diversidade de interpretações que fatiga o nosso cérebro, mas não se pode negar a profundeza de concepção que delas emerge, a seriedade com que encaram o problema da vida na multiplicidade infinita de suas faces, a aspiração que revelam, excitando e estimulando o pensamento de quem as lê e sobretudo a ação benéfica que exercem, fazendo-nos meditar, acordando em nós faculdades adormecidas na rotina de uma vida sem ideais.
Para a França, Espanha, Itália, para portugueses e para nós, brasileiros, a literatura de imaginação, romance, poesia ou drama, tem invariavelmente o mesmo assunto – o amor. Ora, a complicação crescente da vida moderna tende a dar ao amor um lugar muito subalterno na hierarquia de problemas que nos assoberbam.
O amor é uma planta de luxo que a literatura, transplantando o gérmen imortal da vida para sua estufa, fez degenerar da primitiva simplicidade, para uma híbrida e monstruosa criação, que já não pode reproduzir-se, felizmente, porque atingiu o limite de enfraquecimento e da artificialidade que a faz, sem remissão possível, um organismo estéril. O próprio excesso do mal tem em si seu remédio.
A literatura já não pode viver do amor. É necessário que ela procure outros assuntos que a alimentem.
Hoje em dia cada um pergunta ao jornal que lê pela manhã o que há de pensar sobre política ou esporte, esquecendo-se da literatura e arte. E a imprensa cotidiana sempre azafamada na tarefa gigante de informar o mundo do que nele a cada instante se passa, procura somente os casos sensacionais e mal pode suprir os múltiplos encargos dessa sua difícil missão.
Daí provém a transformação que nela se tem operado e que de literária e doutrinária que era, ainda há uns 20 anos, tornou-se simples e definitivamente noticiosa.
Atualmente, poucos são os jornais que ainda guardam, nas suas colunas atravancadas, um cantinho para as curiosidades do espírito, para as investigações da crítica, para os desfastios literários que tantas imaginações, cansadas da moderna vida trepidante e eletrizada, ainda preferem como o mais delicado e querido dos manjares intelectuais.
Os dirigentes da A Razão, que agora surge, depois de um repouso reparador em que juntando energias, acumulando conhecimentos e estudos sobre a humanidade, aparece forte como foi, valente como será, com a sua pena vigorosa doutrinária e literária a orientar e instruir o povo brasileiro, reservaram esta coluna às letras femininas.
Ela, aparecendo de vez em quando, levará a todos os espíritos cultos aquele manjar espiritual que os vivificará, auxiliando-os a vencer a difícil etapa da vida.
Maria Cottas
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