Realidade

Publicado em 15 de janeiro de 1953

Quem reler os magistrais artigos que Ruy Barbosa produziu no Diário de Notícias de 1889, verificará a procedência da culpa que Ouro Preto lhe carregou, como fator principal da queda do império. Nesses artigos o jornalista ímpar, pondo o dedo na chaga, verberava os vícios dos homens do governo, pondo a nu negociatas de família, erros administrativos, deficiências de serviços públicos etc., galeria fiel de quadros, onde se contempla dia a dia a evolução da funesta doença, cuja recrudescência corroía tão prestemente as raízes do império em seu último ano de vida, até ao esbarrondamento final, quando os quase 70 anos daquele sistema de governo o não livraram de rolar, certa manhã, pela voragem dos seus erros, como tronco oco, podre e abandonado, perambeira abaixo, aos olhos insensíveis dos espectadores.

Com essas veementes expressões, em 1921, melancolicamente comentava o insigne mestre a cegueira dos homens do novo regime e a sua própria desmemória, incidindo nos mesmos vícios e erros.

Decorridos quase outros 70 anos do novo regime, em plena falência de instituições republicanas, como pareceriam ao venerando polígrafo faltas veniais como as que impiedosamente zurziu?

Polpudas vantagens aos amigos; relaxamento administrativo; leis de favoritismo pessoal; sujeira até simplesmente material, pela incapacidade de varrer e lavar as ruas; tudo isso e mais alguma coisa passa ante os olhos do espectador mais abstrato, que sem qualquer messianismo indaga sobressaltado: para onde vamos?

Quando um regime está podre, outro é chamado a substituí-lo, e é justamente com isso que contam os inimigos da democracia e da república.

O império parlamentar era por certo mais democrático do que a república de hoje, com poderes enfeixados em mãos de políticos sórdidos e ávidos apenas de pecúnia, e não cremos que outros sob a bandeira vermelha, com os cintos apertados pelo afastamento da mesa orçamentária, se mostrem menos glutões e insaciáveis.

É evidente que a maioria dos políticos do império valia mais do que os da república velha, como é inegável que estes eram melhores do que os que hoje desfrutam do poder. Há, como em tudo, as honrosas exceções, porém sendo mister apurar gradações, tendo em vista o concurso das maiorias, não há negar que hoje estamos em piores condições do que ontem.

Milenário o conceito de que não há bons nem maus sistemas de governo, porém simplesmente bons e maus governantes, parece curial que o primeiro passo, para emenda desse estado de coisas, é modificar o sistema que proporciona a escolha de tão péssimos governantes.

Estamos pensando na reforma constitucional e na remodelação da lei eleitoral, que saiu demagógica e imprópria ao nosso meio, como sobretudo na elaboração de leis orgânicas que ponham freio à desordem administrativa, à distribuição absurda de favores e que evitem a transmudação de 50% da população em comensais do Tesouro.

Não haverá promessas nem boas intenções que vinguem, como não haverá possibilidade de bem-estar econômico, quando a maior parte da receita do Estado é desviada para sustentar funcionários e organizações improdutivas, senão prejudiciais.

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