| Recordações
do passado Ela estava sentada em uma cadeira de
vime com os olhos semi-cerrados e as mãos, que tanto trabalharam,
descansavam, hoje ociosas, nos braços da cadeira. O Sol, caindo sobre os
seus cabelos brancos, neles produzia reflexos brilhantes, e aquela faixa de
luz bailava no ar tranqüilo do aposento acolhedor.
Perto, brincava, descuidado, um netinho travesso, que era todo o seu
encanto.
- Vovó, que fazes com os olhos fechados?
- Recordo o passado, filhinho.
E o pequenito, sem compreender o sentido profundo dessas palavras, riu-se e
continuou brincando.
Recordar o passado é coordenar no pensamento acontecimentos de anos e anos
atrás, é como se revolvesse uma caixa de objetos raros e preciosos, onde
uns, frágeis, se quebraram já, e outros resistem ainda à ação do tempo; é
extrair, deste monte de coisas meio esquecidas, alegres e tristes, algo que
recorde uma vida bem ou mal vivida.
Um pedaço de cetim branco, ao qual os anos deram uma cor amarelada e que
foi, uma vez, parte de um vestido de noiva. O sapatinho de lã de um bebê,
manchado pelas lágrimas de uma mãe, há meio século. Uma fita desbotada que
prendia os cabelos de uma menina alegre e feliz. O primeiro convite de
formatura e o programa de baile de uma jovenzinha, no qual se lêem os nomes
de alguns que já partiram deste mundo, ou de outros que, por sua vez, também
espalhados em outros lares, hoje possuem filhos e netos. Um volume de
poesias, com uma flor apertada entre suas páginas amareladas, flor que se
converte em pó no contato do ar. Um botão de metal que adornou o uniforme de
um ente querido, agora desaparecido para sempre. Um diário íntimo, que cessa
na página onde alguém escreveu: "Hoje nasceu o meu primeiro filho".
Ah! Sim, muito, muito aconteceu desde que a anciã era jovem e tomava parte
nos fatos diários da vida, em vez de limitar-se a contemplá-los na sua
imaginação. Gostaríamos de saber quais as alegrias e tristezas de sua longa
existência, o que lhe agradaria ressaltar para contemplar, nostálgica, nas
suas recordações, que preferiria deixar abafadas no esquecimento. E
perguntamos a nós mesmos, também, quais de nossas recordações preferiríamos
guardar, se nos fosse dado escolher, entre todas elas? Seriam, talvez, as
recordações da infância, idade incomparável em que o presente de uma boneca
nos leva ao auge da felicidade? A recordação daquele dia de chuva em que
ficamos tão tristes, desesperadas mesmo, por não podermos ir ao passeio com
que sonhávamos semanas antes? Ou nos agradaria viver, novamente, a
adolescência, com a recordação dulcíssima das emoções inefáveis do nosso
primeiro romance?
Há mulheres que, através dos anos e das vicissitudes, encontram alegria na
recordação do dia do seu casamento em que, no seu lindo vestido branco,
assumiram o compromisso mais sério de sua vida, e o cumpriram galhardamente.
Outras dão mais valor que às suas jóias à recordação da emoção experimentada
ao apertar em seus braços, pela primeira vez, o filhinho recém-nascido. Há
aquelas que preferem, sobre todas as coisas, reviver o grande momento em
que, como artistas, conseguiram ver satisfeita a maior ambição de sua vida,
e os aplausos do mundo ressoaram, como doce música, aos seus ouvidos. Ou
talvez a mulher que sonha com o passado recorda tão-somente os anos de
aprazível felicidade em que avançava no caminho da vida pela mão de um
companheiro amigo.
E, indubitavelmente, entre os tesouros inigualáveis que todos possuímos,
estão as recordações de um amor que nos dedicaram, da bondade que nos
demonstraram, da lealdade que não nos faltou, das mãos que nos estenderam,
na necessidade.
Felizes e prudentes serão aquelas que armazenaram tão gratas recordações
para reserva destinada aos dias em que a única coisa com que contarão para
alegrar-se será a evocação do passado.
Maria Cottas
Do livro Folhas esparsas
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