Remorso e pesar

Caruso Samel 

O remorso é um sentimento muito negativo, que corrói a alma da criatura de forma tormentosa e aflitiva, sendo responsável pelo aparecimento de muitas e profundas angústias na mente das pessoas. Vimos, quando estudamos o tema O remorso, que é uma reação ao arrependimento espontâneo e sincero. Por isso, o remorso resiste e trava a consciência, no sentido de que ela possa vir a alcançar o alívio que resultaria do arrependimento.

Esse conflito entre o remorso e o arrependimento só pode ser eliminado mediante uma postura honesta, digna e leal conosco mesmos no momento em que percebermos que ofendemos o nosso semelhante ou que deixarmos de fazer alguma escolha importante para nossa vida. Assim, o remorso é um sentimento que tem suas raízes sobre eventos e ações que já ocorreram e que precisam ser trazidos à tona para que nossa consciência trabalhe sobre eles, no presente, objetivando encontrar uma solução de desencargo íntimo. A criatura não tem nada a perder ao trabalhar uma solução para sair do sufoco causado pelo remorso, não devendo adiar, em hipótese alguma, a solução de seu problema, removendo, assim, a sensação desagradável ou de desconforto de que padece.

Quem de nós não foi ainda acometido por algum remorso a respeito de alguma coisa que fizemos de errado em nossa vida? Quase sempre, a indolência ou a inação para resolver certas questões sentimentais nos deixam com a sensação de que deveríamos ter feito algo, mas não o fizemos. Em outras ocasiões, o remorso pode derivar de alguma coisa importante que deixamos de fazer, quando tínhamos todas as condições para fazê-lo. E, como deixamos passar a oportunidade e nada fizemos, surge o arrependimento, que pode recalcar-se na forma de remorso, deixando-nos preocupados sobre a nossa falta de prontidão e perspicácia por deixarmos escapar de nossas mãos algo que não volta mais.

O que aprendemos com isso? Se soubermos tirar boas lições dessas posturas negativas, encontraremos, no futuro, melhor discernimento para fazermos melhores escolhas.

É do conhecimento de todos que já passaram por situações de remorso que este traz grandes sofrimentos, desapontamentos e até verdadeiros fracassos que abalam as convicções de certas criaturas. Às vezes, isto pode criar uma situação de muito embaraço espiritual, a ponto de a criatura ficar aturdida ou com ideia fixa de que ela foi a causadora de determinada situação dolorosa. É claro que isto imobiliza as atitudes da pessoa a ponto de deixá-la perturbada, sem condições, portanto, de, por si mesma, dar a volta por cima e encarar positivamente a vida. Eu mesmo conheço um caso que ocorreu com um primo que se considerou o causador da morte de seu pai (meu tio) em acidente com o automóvel que dirigia, quando o carro saiu da estrada e capotou. Ele assimilou essa responsabilidade mediante o surgimento de um grande e terrível remorso, do qual nunca se livrou. Vemos, assim, que o quanto antes a criatura se livrar de um caso de remorso, tanto mais fácil será curar-se desse terrível tormento, ainda que venha necessitar de aconselhamento ou ajuda psicológica.

É sempre possível encontrar relações de causa e efeito entre os sentimentos de pesar, tristeza e remorso, todos muito abrangentes e de certa forma relacionados entre si. O pesar é um sentimento natural que ocorre sempre que tivermos que enfrentar grandes perdas de ordem sentimental e emocional. Não raro, esses sentimentos representam emoções que servem para nos motivar e mudar os nossos comportamentos e atitudes.

Há, contudo, que se ter muito cuidado para não vermos a depressão tomar o lugar do pesar e da tristeza, especialmente quando estas se prolongam por muito tempo. Muito antes de chegar a esse ponto, precisamos modificar os pensamentos de tristeza e pesar pelos seus equivalentes opostos – a alegria e o entusiasmo, estes, sim, sentimentos positivos, para evitarmos o seu agravamento e a necessidade de precisarmos recorrer a um tratamento psicológico ou até mesmo psiquiátrico.

O sentimento de pesar está sempre associado ao sentimento de perda. Vale a pena constatar que o pesar associado à perda de um ente muito querido normalmente é muito profundo e doloroso. O grau de intensidade do pesar tem uma relação muito forte com o valor que damos aos nossos relacionamentos e amizades. Entre os membros de uma família ele é, de regra, muito forte.

São numerosas as causas que podem levar-nos ao sentimento de tristeza e pesar. Mas, enquanto algumas pessoas superam facilmente esses sentimentos, outras são deles presas fáceis. Muitas pessoas ficam pesarosas por qualquer coisa, como, por exemplo, quando morre o seu cachorro e por tantas outras coisas banais de nosso cotidiano.

Sendo o pesar um processo natural, ele serve para curar a "dor emocional" que dele resulta. Passar por esse processo faz parte da vida terrena, mas é preciso que a criatura tenha coragem espiritual para deflagrar sua força de vontade e se esforçar para se livrar do problema que o causou no mais curto tempo possível, operando-se, assim, a auto-cura. Se assim não proceder, a pessoa poderá ser levada a uma fadiga extrema ou até mesmo à inércia e indolência, provocando a somatização do sofrimento em dores que aparecem em várias partes de seu corpo físico. Daí para a perturbação mental é um passo, podendo chegar à obsessão traumática ou até mesmo levar a criatura à desencarnação.

Há casos em que o pesar pode ir além de certos limites por fraqueza da vontade em interromper o processo que tende a estender o período do pesar, prostrando a criatura de tal forma que ela se sente aniquilada, psiquicamente debilitada.

Nessas circunstâncias, a pessoa se torna muito infeliz, sendo difícil ela mesma quebrar este triste círculo vicioso. Antes de chegar a este ponto, alguém que com ela conviva precisa perceber a situação e procurar ajuda para dar solução ao problema, antes que seja tarde.

Não estamos pintando a situação com cores sombrias, pois fomos testemunha de alguns casos chocantes que decorreram de situações semelhantes. Só assim poderemos evitar que o problema se torne insolúvel e ajudar a resgatar a confiança de um ente querido ou mesmo de um amigo em si mesmo, evitando que o desespero se instale e cause, no seu extremo, uma depressão tão grave que possa levar à desencarnação que, de outra forma, poderia ter sido evitada.

(O autor é Militante da Filial Butantã, SP)

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