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Satanás,
mercadoria rendosa
Antonio Cristóvam Monteiro Satanás, segundo a lenda, é o anjo do mal transviado, expulso da corte celestial. Nome de uma fértil sinonímia - Diabo, Lúcifer, Demo, Belzebu, demônio, capeta etc. Na concepção satânica, é o responsável por tudo de mau que acontece. Tornou-se mercadoria providencial, sumamente rentável no balcão dos mistificadores. Engorda os bolsos dos falsos profetas com o engodo do exorcismo. Para eles é a chave de toda a cura dos males espirituais e materiais. Em outros bons tempos, essa modalidade de chantagem era reprimida em lei, como exploração de credulidade alheia. Todavia, com o correr dos tempos, graças à corrupção dos costumes, veio sendo disseminada torrencialmente pelos meios de comunicação, começando pelo cinema, evoluindo para o rádio, culminando, nos tempos hodiernos, pela televisão. A ridícula figura de Satanás, como se diz na gíria popular, tem sido sempre a bola da vez. Seus manipuladores bombardeiam noite e dia os nossos tímpanos com suas bravatas de falsos curandeiros. Operam curas milagrosas a torto e a direito de todas as enfermidades. Triste ilusão das mentalidades mal formadas. E elas constituem legiões por esse mundo além. Ora, em tempo não muito distante, um dos maiores credos religiosos, o catolicismo, se viu às voltas com o rei das trevas, o gênio do mal. Apesar de, na nossa reverente humildade, respeitarmos o catolicismo, como outras religiões, no que possa nelas haver de bom, sofreu ele uma fase de hesitação sob o papado de João XXIII, com a realização do Concílio Ecumênico II, quando foram discutidos assuntos de magna importância com cassação de várias centenas de santos, como São Jorge, São Sebastião, São Cristóvão, inexistência do demônio, do milagre e outros dogmas cujas resoluções foram sancionadas e divulgadas pelo ilustre Paulo VI. Maior celeuma foi a cassação de santos cuja devoção estava, há muito, entranhada na fé dos cristãos católicos. Tamanhas foram a excomunhão do diabo e a abolição do milagre, mormente estas duas medidas que, se vingadas, teriam à religião dado um importante passo na sua evolução. Reformas que, no curto espaço de tempo em que vigoraram, já vinham provocando certa debandada de fiéis. E o demônio voltou redimido, tanto que, no sacro colégio de Roma, foi até criada uma cadeira de demonologia, disciplinando a prática do exorcismo do rei das trevas. Aí está retratada a triste figura, autêntica ficção, do diabo, cuja erradicação das mentes teleguiadas, envenenadas pela mistificação dos falsos profetas, vem sendo posta em prática desde os idos de 1910, através das Casas Racionalistas, pela disciplina, única e salvadora, do Racionalismo Cristão, fruto da vontade férrea, inquebrantável, e do grandioso espírito do nosso mestre Luiz de Mattos e seus sucessores e colaboradores, e que terá que ser sempre revigorada por todos nós, seus fiéis seguidores. Sempre nos cumpre ressalvar o nosso mais profundo respeito à inatacável pessoa de todos os religiosos, mas o objeto da crença, esse está sujeito ao livre debate. Se tal não acontecesse, estagnado estaria o processo evolutivo da civilização. Diz o ditado popular que da discussão nasce a luz, o conhecimento filosófico, que o universo se equilibra pelos contrários. |
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