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Saúde, bem em degradação Clecy Ribeiro Conflito, calamidades ou oportunidade levam o homem a deslocar-se. Doenças globalizam-se Migrações, desafio chave para o mundo aí por 2025. Então, indicam projeções, cerca de 60% da população mundial, ou 3,9 bilhões de pessoas, viverão em cidades. Além da questão de recursos naturais, saúde e governança, megalópoles serão cidades costeiras, vulneráveis a desastres naturais – tufões, tsunamis, furacões. Serão fluxos migratórios intensos, êxodos mesmo, decorrentes de conflitos localizados, no mais das vezes. A luta por recursos naturais faz-se sem trégua, torna-se pilhagem. E a urbanização crescente reflete-se penosamente na infra-estrutura sanitária, problema agravado por descaso público e pelo ganancioso poder corporativo. Na infeliz sequência, como prevenir, verificar males recorrentes, tratar doenças? Hoje, nem mesmo os Estados Unidos, investidos de tanta capacidade, são auto-suficientes em medicamentos. E só nove países europeus têm como suprir seu mercados domésticos. Nada sobra para exportar. Trombetas soaram há mais de quatro anos, depois de vários alertas leves. Trombetas para pandemias, a qualquer tempo, a custo de nocaute para a saúde do homem e a economia mundial. Esses fatos continuam indiscutíveis, atestam cientistas. Como precursores, os surtos mais ou menos recentes de gripe aviária e suína, em quatro continentes. Com eventual contaminação ao homem, fruto da mutação genética, que permite rápida transmissão. E, tal como terremotos, furacões, tsunamis, pandemias de gripe constituem-se agora desastres naturais recorrentes. Com suas seqüelas: ao comércio, economia, serviços públicos etc. etc. Parte – aliás, boa parte – da responsabilidade recai nas multinacionais (sobretudo das indústrias agroalimentares e farmacêuticas). Registros, um tanto dispersos mas incontáveis, referem ocorrência de gripe por vírus contraídos de animais – aves e porcos – devido a unidades industriais em condições deploráveis de higiene. Menos espaço, mais animais; o estresse faz aflorar a patologia, contamina-se a água ou o que seja. Ou gado leiteiro submetido e adoecido por tratamento hormonal de engorda. Ou o boi de corte da vaca louca. Ou os transgênicos e pesticidas. Mais aves, porcos, leite, carne, grãos, vegetais, maior lucro. O poder corporativo ao abrigo dos acordos de livre comércio. A preocupação com doenças infecciosas envolve, também, o tema explosivo da mudança climática. Nove em dez desastres naturais relacionam-se ao clima, dizem estatísticas oficiais. Prevê a ONU: 250 milhões de refugiados climáticos no horizonte de 2050. E 325 milhões de pessoas, por ano, afetadas pela degradação severa do meio ambiente; 1 bilhão de seres humanos sem acesso à água; 2,6 bilhões sem acesso a meios sanitários. Já em 29 de maio deste ano, o Fórum Humanitário Mundial atribuía ao aquecimento climático a causa da morte de 300 mil pessoas/ano, metade vítima da fome; em segundo lugar, de doenças. Migração, comércio, turismo aliam-se diretamente à difusão de patógenos e seus vetores de transmissão. Sem contar a degradação ambiental. Que regiões teriam condições de suportar aumento de densidade populacional? Como conter o impacto do saque aos recursos indispensáveis à vida, ou à almejada melhoria dos padrões de vida? Abre-se via potencial a novos conflitos geopolíticos, amplia-se o abismo entre vencedores e perdedores. A longo prazo, a mudança climática – com tudo que traz em seu rastro – afetaria mais os padrões e processos de deslocamento do que a crise financeira atual, vaticinam muitos. Estaria, assim, definida a urgência política de nossa era.
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