![]() |
![]() |
|
A bem da saúde física e moral
Clecy Ribeiro Descobertas científicas orientam-se para servir a sociedadeO ano encerrou-se com saldo positivo, em se tratando de ciências. Avançam as pesquisas genética (já agora voltada para doenças potenciais) e nuclear (dividida entre o civil e o militar). Preocupam mais e mais as doenças neurodegenerativas, provocando frenesi no intercâmbio de idéias. A revolução robótica – inteligência artificial – galga desafios e vai chegando à Medicina, Segurança, Forças Armadas, Esporte. Lá para 2050, espera-se, robôs humanóides terão constituído time de futebol, para maior ou menor emoção dos adeptos. Porque seria na informática, precisamente, transformação tão significativa quanto a revolução industrial, com impacto em tudo e todos. Progresso célere, pois que o mundo tem pressa dos resultados. Mas diálogo ainda restrito. Fato que se insere entre as grandes interrogações do momento, devido às questões éticas. Altas tecnologias são ainda apanágio de poucos. Muitos aspectos da ciência moderna continuam inacessíveis. Sofre, principalmente, a saúde, de acesso desigual. Submerso o Estado paternalista, novas soluções pretendem responder às mudanças em curso. Quais? Espiritualidade e consciência, abstratas, começam a assumir forma menos fluida. A sociedade precisa pensar sobre o mundo de modo coerente, compatível com tanto progresso e descobertas relativas à teoria dos quantum e à relatividade. Essa a proposta de Carlos Rovelli, da Universidade do Mediterrâneo em Marselha (New Scientist). Faz-se imperativo associar ciência e ação, em proveito da sociedade, pregam os organizadores do colóquio Ciência e Sociedade em Mutação, do Centre National de la Recherche Scientifique, a realizar-se neste mês de fevereiro, em Paris. Uma jornada de reflexão sobre educação, economia, cultura, mídia e política. "Todos os países têm contrato, embora muitos não escritos, com a ciência", afirma o ex-editor de New Scientist, Bernard Dixon. Ainda nesse contexto, reunião em julho da World Future Society, em Minneapolis, mostra como a sociedade importa e perturba. Projetam-se, na ampla pauta, os setores de saúde e valores espirituais. É nesses campos que desperta o fator mental como chave para entender e melhorar a saúde. Aflige a desigualdade entre Norte e Sul – onde as patologias são mais mortais. Organismos como Médicos Sem Fronteiras, ONU, Campanha de Ação pelo Tratamento denunciam falta de ambição humanitária e visão estratégica. Mas, na esteira, também as grandes empresas farmacêuticas, incentivadoras da pesquisa sobre doenças mais rentáveis e um lobby ativo contra os genéricos. Na Aids, o flagelo. Até 2030, as mortes duplicarão, teme a Organização Mundial de Saúde, que alerta para crise sanitária sem precedentes. Das 8 mil mortes de aidéticos por dia, um terço acontece na África. Pudera! São guerras, êxodos maciços, migrações, sobrevida em campos de refugiados putrefatos por todo tipo de miséria. Eis um registro de Ayaan Hirsi Ali (Ma Vie Rebelle, tradução francesa Nil Editions), somaliana ora refugiada nos Estados Unidos, testemunha da guerra civil de história inacabada em seu país: "Todos pareciam fantasmas. Caminharam, caminharam, e perderam tudo no caminho. Alguns viram morrer os filhos, e os bebês sobreviventes eram magros, esgotados. Afrontaram bandidos, cruzaram campos de batalha. Em seus olhos, lia-se o caos. Poder-se-ia dizer que regressavam de uma viagem ao inferno". Século XXI, promissor de grandes descobertas, mas de grandes males do corpo e da alma. Em sua visão do futuro nos próximos 50 anos, o psicólogo evolucionário e revolucionário Geoffrey Miller (Universidade do Novo México) acena, porém, com o surgimento de condições sociais favoráveis ao florescer de virtudes morais no homem. "Os Estados Unidos seguirão a Grã-Bretanha na constatação de que a religião não é pré-requisito habitual de decência humana. Assim, a ciência matará a religião – não que a razão desafie a fé, mas ofereça uma estrutura moral mais aplicada, universal e recompensadora para o interagir humano. Uma filosofia moral naturalista substituirá as ficções corrompidas da ética teológica... A psicologia evolucionária aplicada ajudará o humanismo Iluminismo a satisfazer seu potencial há tanto estagnado, para nos fazer mais inteligentes, mais sábios, mais felizes e mais complacentes". Bem, o século mal começa. (A autora é jornalista) |
|