A segurança do lar

Maria Cottas

No íntimo de nossa alma, todos guardamos recordações do lar paterno. São lembranças que nos seguem pela vida afora, ligando-nos indissoluvelmente à memória de entes queridos, que parecem reviver ao nosso lado nos momentos em que os evocamos.

Às vezes é um nada, de tão simples. Um gesto, uma frase solta, uma atitude assumida em determinado momento e que se gravou em nossa mente para o resto da vida.

Sentimos então uma espécie de consolo, de beatitude, de paz interior, como que uma reconciliação de sentimentos, ao relembrá-los para outrem, como a querer que também os amem como nós, que os queremos tanto.

Assim, lemos, alhures, recordações do lar em que viveu o professor Carlos Chagas Filho, que, em certa passagem, assim se expressou: “Sem dúvida, foi devido à minha mãe que meu pai pôde realizar a grande tarefa de pesquisador que lhe coube. A serenidade, a calma, a paciência e a bondade com que ela soube vencer todas as vicissitudes da vida ao lado de um cientista deram ao meu pai a segurança de um lar que lhe permitiu empreender e realizar o seu trabalho.”

“Foi nessa atmosfera de profunda admiração e compreensão”, prosseguiu, “e, mais do que isso, de um companheirismo ideal que procurava, a todo momento, tirar da vida cotidiana de meu pai as suas dificuldades rotineiras, que eu formei meu espírito e me encaminhei, naturalmente, para a pesquisa científica. Guiou-me o ambiente que tinha em casa”.

Mais adiante, confessou que não sabia se tivera mesmo vocação para a ciência ou se ela existiu por forte influência estimulada pela devoção de sua mãe a seu pai e pela personalidade que mereceu a afeição profunda que todos lhe devotavam em casa. Interpretava assim – à luz de suas idéias de hoje – o que aconteceu no início de sua juventude.

Bela revelação de um filho grato e orgulhoso da influência do lar, onde a união e o amor dos pais concorreram para seu êxito e felicidade.

Quem dera que todos os filhos assim se expressassem!

Infelizmente, porém, nem todos podem orgulhar-se do lar que possuem, pelo ambiente de incompreensão e desinteligência nele existente. Quantos rapazes e moças não se encontram hoje tristes e recalcados pelas desinteligências observadas no lar ou pela separação dos pais, a quem amam igualmente, sem saberem que partido tomar: se do pai, se da mãe.

Querendo o carinho de ambos, mas só podendo gozá-lo separada e parceladamente. Se estão com a mãe, sentem a falta do pai e dele se recordam com saudades, ao mesmo tempo que sentem o isolamento e a tristeza da mãe, se foi ela a abandonada. Se estão com o pai, reprovam, ao mesmo tempo, o abandono em que sua mãe os deixou. Vítimas inocentes de um lar infeliz!

E que influência exercerá o ambiente desse lar no espírito dos filhos?

Não será, sem dúvida alguma, igual àquele que exerceu sobre o espírito do professor Carlos Chagas Filho, que tão orgulhosamente enaltece os exemplos dos pais e a afeição profunda que todos lhes devotavam em casa.

(Do livro Páginas soltas)

Página principal | Arquivo