Sentimentos e emoções: o que os distingue?

Caruso Samel

Só no final dos anos 90 os estudos sobre os sentimentos e as emoções ganharam novas dimensões. Isso devido à complexidade no entendimento dos sentimentos, emoções e paixões humanas, o que torna difícil distingui-las. Acresce a isso a grande dificuldade em distinguir as emoções básicas das derivadas.

Atualmente, para estudar e dimensionar a personalidade humana os psicólogos adotam modelos que incluem três ou mais fatores. É fácil compreender que a complexidade desses modelos aumenta com o número de fatores.

Os psicólogos norte-americanos adotam, de preferência, um modelo bem aceito que leva em conta três fatores – psicoticismo, extroversão e neuroticismo – conhecido com o nome de Sistema PEN (formado pelas iniciais dos fatores) de Avaliação da Personalidade.

SIGNIFICADOS. Nesse quadro, esses termos técnicos têm os seguintes significados:

O fator psicoticismo exprime uma tendência da pessoa a ser solitária e insensível, mas que aceita os costumes sociais. Esse fator abrange características como agressividade, impessoalidade, egocentrismo, frieza, impulsividade, criatividade, falta de empatia, obstinação e antissociabilidade.

A extroversão inclui fatores primários de vitalidade, atividade, sociabilidade, assertividade, busca de sensações e o sentido de dominância. O seu oposto, a introversão, caracteriza-se pela disposição a ser quieto, fechado, reservado, reflexivo e evitar riscos.

Finalmente, o fator neuroticismo, ligado ao sistema nervoso, caracteriza alguns sentimentos como a baixa autoestima, ansiedade, depressão, sentimentos de culpa, tensão, irracionalidade, timidez, tristeza e emotividade.

Assim, neste complexo contexto, o Sistema PEN leva em conta problemas relacionados às emoções, sentimentos, pensamentos e comportamentos.

EMOÇÕES. A análise que se segue, envolvendo 14 autores que adotam o Sistema PEN, inclui aspectos, tais como: tendências à ação, expressões faciais universais, formas imediatas de ação, conteúdo embutido, envolvimento corporal, inter-relação com os instintos, emoções não-apreendidas, sem conteúdo específico, relacionadas aos processos biológicos adaptativos e densidade de reação. Eis o quadro-resumo final:

l• Citado por oito dos 14 autores: medo
• Citados por seis dos 14 autores: desgosto, ira e tristeza
• Citado por cinco dos 14 autores: surpresa
• Citado por quatro dos 14 autores: alegria
• Citados por três dos 14 autores: felicidade, interesse e raiva
• Citados por dois dos 14 autores: admiração, amor (material), desejo e vergonha

• Citados por pelo menos um autor dentre os 14: altivez, ansiedade, antecipação, aversão, compaixão, conteúdo, coragem, culpa, desespero, doçura, dor, ódio, pânico, pesar, prazer, rejeição, submissão e terror.

• No total, são citadas pelos 14 autores 33 emoções.

Fomos buscar no capítulo IX do livro Elementos de Psicologia - volume 2, de David Krish e Richard Krutchfield, páginas 265-307, uma classificação bem mais simples para as emoções.

Os aspectos envolvidos são apresentados, a seguir:

1. Emoção (conceito). Tudo aquilo que causa estado de excitação no organismo, através das amídalas cerebrais. Estas são as nossas sentinelas localizadas no sistema límbico, verdadeiro “porão de entrada do cérebro”, no que se refe-re aos sentimentos e emoções.

2. Componentes da Emoção. Toda emoção apresenta seus próprios componentes ou características. Tomemos por exemplo o sentimento de cólera. Nele, temos a experiência emocional (o próprio sentimento de cólera), o comportamento emocional ou a reação à provocação (no nosso exemplo, a pessoa pragueja e ataca) e as alterações fisiológicas correspondentes (neste exemplo, o sangue sobe à cabeça). Aqui o comportamento reflete as consequências e abrange os estados motivadores e emocionais.

3. A Experiência Emocional. Segundo o autor citado, a experiência emocional usa o conceito de “dimensões gerais” e tende a se organizar como um procedimento, exibindo os seguintes efeitos, que podem ser cumulativos:

• Intensidade do Sentimento - Quanto mais intensa for a experiência emocional, mais a emoção controla o “eu”. No exemplo já citado da cólera, sentimos inicialmente uma leve irritação, e da irritação podemos chegar ao estado de fúria. Com a alegria, sentimos uma suave satisfação e desta podemos chegar a uma exaltação empolgante, um estado de euforia com irrigação cerebral pelas endorfinas.

• Nível de Tensão - Aqui estamos falando dos impulsos para a ação envolvendo o “eu”, bem como emoções ativas e emoções passivas. São emoções ativas ou psicomotoras, por exemplo, fugir de um objeto, dançar de prazer etc.. São emoções passivas, por exemplo, a pessoa ficar parada, como na tristeza ou na depressão, que são passivas, mas podem ser muito intensas. A intensidade e o nível de tensão podem relacionar-se. A diferença entre a emoção ativa e a passiva está no grau de excitação e na força dos impulsos, que pode ser, por exemplo, grande e profunda.

• Caráter hedonista - Refere-se ao prazer ou desprazer que a emoção provoca. Neste sentido, as emoções podem ser: agradáveis, como, por exemplo, a admiração, a surpresa, a piedade; ou desagradáveis, como a tristeza, a vergonha e o medo. É óbvio que a intensidade influi no caráter hedonista, como, por exemplo, a cólera pode ser branda ou intensa.

De outro lado, o autor alerta que existem paradoxos, como, por exemplo, a fome, que começa agradável e se torna desagradável quando se intensifica. O medo é outro exemplo, agora inverso, podendo ser excitante e acabar em muita alegria, como no caso de uma experiência na montanha-russa.

• Grau de Complexidade - As emoções podem ser simples e diretas e complexas. São simples e diretas, por exemplo, o medo diante de um susto, a pura tristeza diante do cãozinho morto ou a pura alegria diante de um prêmio ganho na loteria. São complexas, por exemplo, emoções qualificadas como “indescritíveis”, que não nos permitem dizer se são “agradáveis” ou “desagradáveis”.

4. Conclusão. A riqueza e a sutileza da experiência emocional desafiam a linguagem humana existente e deixam os estudiosos do assunto surpresos e embaraçados.

(O autor é militante da Filial Butantã-São Paulo)
 

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