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Simplicidade do interior
Viver em grandes cidades está cada vez mais complicado – violência, trânsito, barulho, falta de tempo suficiente para realizar todos os afazeres e ainda achar tempo para cuidar de si. É comum ouvirmos as pessoas dizerem: "Não tenho tempo para me cuidar!". Há uma frase do idealizador do exercício de Cooper que diz: "Ou você arranja tempo para fazer atividades físicas ou terá que arrumar tempo para ficar doente!" É claro que, vivendo em cidades menores, isso fica mais fácil. Houve um momento em que, mesmo morando em Marília, com aproximadamente 200 mil habitantes, eu também não tinha tempo para nada, e todos os meus problemas se resumiam ao meu trabalho e relações familiares conturbadas que precisavam ser resolvidas. Cheguei ao absurdo de dizer a uma amiga que em primeiro lugar estava meu trabalho, o pensamento dos outros não me importava.
Tudo estava muito mais complicado naquele tempo, mas eu não percebia. Envolvida totalmente nas atividades de minha profissão, ganhando mais do que necessitava para viver, trabalhando de forma compulsiva, sem tempo para pensar achava que era feliz.
Hoje tudo mudou, trabalho bastante, mas vivo correndo atrás do prejuízo do mês, me desgasto com a busca da perfeição do meu ofício e estou sempre me auto-penitenciando quando algo não dá certo. Vivo um relacionamento que me tem feito crescer como ser humano, me faz bem, e que antes não tinha tempo; converso sobre a vida com meus amigos, ouço o que têm a dizer, sou ouvida, procuro intervir nas relações familiares sem me exaltar, mas mesmo assim, ando em crise existencial e me perguntando: por quê?
Faço exercícios físicos diariamente, sou militante ativa na Doutrina Racionalista Cristã, meus alunos me vêem como exemplo, me pedem conselhos, fisicamente estou ótima, espiritualmente mais equilibrada, mas com tudo melhor, às vezes, acho que está pior. Arrumei tempo para pensar! Quando isso acontece, duas situações advêm: depressão ou evolução. Só que evoluir também machuca porque olhamos para dentro de nós mesmos e percebemos nossas falhas. Leio todos os dias pelo menos 20 minutos as mais diferentes obras, sempre sobre como melhorar a maneira de viver. Neste momento, sentada, escrevendo estas palavras, me dou conta que não é infelicidade que sinto, é maturidade, a complexidade das situações não está mais fora de mim, está dentro.
Os problemas não vão parar, não antes de eu chegar ao fim desta existência. Eles vão mudar, os que tive ontem já perderam a importância; os que não consigo resolver administro sem me envolver tanto, porque sei que as escolhas são individuais. Então, como evitar o estresse, desistir? Ficar em casa sem fazer nada e, assim, não sofrer com as coisas que não dão certo? É para frente que se anda, crise existencial serve para questionar, arrumar, crescer. Quando não couber mais nada na gaveta, é preciso tirar tudo para fora, descartar o que não serve e arrumar a bagunça, jogar a gaveta fora não é solução.
Não é possível ser feliz o tempo todo, mas podemos tentar pôr um sorriso no rosto e seguir em frente. Não se pode desistir; podemos estar cansados de nosso trabalho atual, mas outro talvez fosse pior. É preciso achar o novo no antigo, viver como o homem do campo, de acordo com a natureza, levantar com o sol e deitar com a noite, fazer o que precisa ser feito, sem pensar muito. Nos dias de chuva, ficar quietinho esperando a tempestade passar.
A vida é simples, nós, seres humanos, é que a complicamos, querendo sempre tudo perfeito. Só que, como não sabemos o que é perfeição, às vezes, estamos diante dela e não a reconhecemos.
Certa vez me falaram que eu penso demais, acho que essa pessoa tinha razão, pensando eu me perco; mas depois me encontro, no fundo o que eu quero é não analisar tanto e viver de forma tranqüila, porque eu sou apenas uma moça simples do interior que está tentando arduamente ser uma pessoa um bocadinho melhor!
Heloisa Ferreira da Costa
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