Sob a égide do capital

Clecy Ribeiro

Com o dinheiro curto, a ideia de promover democracia tornou-se irrelevante. Esta segunda década do século XXI assume facetas peculiares. Os doadores já lá se vão. Assim, muitos países acham melhor desistir da propalada assistência externa – burocratizada e insignificante. Outros preferem separar o império da lei da democracia participativa. De resto, o impacto do endividamento norte-americano e europeu esfria o entusiasmo.

Acontecimentos recentes vêm mudando o contexto. A “primavera árabe” ocorreu, por paradoxo, em países nos quais o Ocidente apoiava governos não democráticos. Entrou em colapso a percepção de que é necessário promover a democracia, conforme ressaltam analistas como o autor Fareed Zakaria. O desafio, agora, é ganhar a confiança das novas lideranças que se formam, descrentes das organizações ocidentais. Rompe-se a moldura da assistência externa com base em intervenção militar (Iraque) ou invisibilidade (Egito, Tunísia). São, assim, parcas as esperanças de rupturas significativas no status quo de países como Afeganistão e Iraque; Ucrânia, Geórgia, Kirguizia, Azerbaijão. E os países árabes tendem a enfrentar novos governos autoritários ou caos pós-conflito.

Cai também a crença de que os Estados Unidos deveriam refazer o mundo (ou boa parte dele) à sua imagem. Falta apoio político, mesmo se a assistência à democracia representa uma porção extremamente pequena do orçamento de política externa. Mercê do endividamento interno, os políticos (sobretudo os republicanos) estão mais atentos aos efeitos das intermináveis guerras e questionam sua capacidade de cumprir as metas definidas.

Podemos nos dar ao luxo? Por que não ampliar o seguro-desemprego? Por que se fala em fechar parques nacionais? Que os gastos sejam para consumo interno. O próprio presidente Barack Obama parece propenso ao descrédito geral. Criticado por sua estratégia centrista de compromisso com os republicanos e complacência com o mundo financeiro, cai nas pesquisas de opinião. Como disse um manifestante do protesto “Ocupar Wall Street”, não se trata mais de apoiar este ou aquele candidato, mas da forma pela qual o país funciona.

Há um consenso de que o fim da zona do euro configuraria um desastre econômico, de falências em cadeia. E, a agravar-se a crise (bancos ameaçados), Barack Obama estaria com as eleições de 2012 ameaçadas. À China também interessa ver na Europa um dos grandes polos monetários das próximas décadas – alternativa ao dólar. Quanto à Europa, assume sua vontade política de salvar o sistema de moeda única, mas ao próprio ritmo, negociando entre países. São duas velocidades: o Sul, com forte expansão; o Norte pagando penitência. Muda o tom. Em vez de decisões a posteriori, adota-se outro princípio: cada um garantir a dívida dos outros, mas com controles. Governos e bancos entram no mesmo saco. Consagra o Banco Central Europeu o título pouco honorífico de “bad bank”, pois que desvirtuado de uma missão estabilizadora para a de escoadouro de créditos podres. Frankfurt, cidade dos bancos, agora é Bankfurt.

Continente aonde a democracia chegou como se esperava, a Ásia investe na politização. A considerar: Cingapura, único país que enriqueceu sem tornar-se uma democracia; Filipinas e Indonésia, países democráticos antes e ricos depois. Por toda a Ásia, é forte a tendência a sistemas eleitorais majoritários em vez de sistemas proporcionais, como nas democracias ocidentais. Na China, graças à pluralização da mudança social rápida, o processo ali se faria sem muita pressão. A renda per capita chinesa atinge, hoje, US$ 7,570. E vai crescendo. O diálogo dissemina-se, contudo sob controle. Por causa da crise na zona do euro, a China vem perdendo terreno em seu maior mercado exportador, a Europa. Assim, optou pelo investimento interno, pensando inclusive na população rural, ainda desconectada do sistema econômico.

Para a Rússia, conta a reintegração do espaço pós-soviético: Europa, onde expandir poder e influência regional; Ásia, como destino natural. O projeto de estratégia energética (até 2030) prevê aumento de exportações para a Ásia em mais de 20% de seu mercado. Às elites russas preocupa a crescente influência chinesa na zona de interesses russos, entre outras o Ártico. As eleições de 2012 não tendem a alterar o quadro. Desde 2008, Medvedev reina e Putin governa. Se Putin ganhar ano que vem e reeleger-se em 2018, será presidente até 2024.

Na contramão do dinheiro curto, os países da América Latina e Caribe aumentam gastos militares: US$ 57,8 bilhões em 2009, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Ano em que, pela primeira vez, os dois maiores compradores de armas (fora do G-8 e China) foram Brasil e Venezuela. Esse mercado parece longe de constituir uma corrida armamentista. É, na verdade, uma onda de compras, adiadas com a desmilitarização dos anos 1980 e 1990. Na virada do século, a alta de preços das matérias-primas exportadas pelas nações latino-americanas permitiu alterar o panorama. Os gastos de defesa chegam agora a 12,4% da arrecadação fiscal, variando os motivos em cada país: percepção de ameaça externa, conflito armado interno, insegurança na área civil, modernização do equipamento vis-à-vis projeção de poder ou apaziguar as Forças Armadas. No Brasil, o poder militar é considerado uma questão de prestígio, aliada à proteção das águas territoriais atlânticas (Amazônia azul) e o petróleo que encerra. Há que manter felizes os militares. Também em curso no Chile e Venezuela uma onerosa modernização militar, mas é na Colômbia que se propagam as tensões fronteiriças e o temor de invasão. No continente, como um todo, proliferam as armas convencionais, sobretudo sistemas sofisticados. Enquanto isso marcha a integração política, deixando os setores energético e financeiro ainda cheios de hiatos.

No cômputo geral, imperam amargura e desespero com os sistemas políticos vigentes – inclusive os democráticos –, porque, via de regra, submissos ao dinheiro. Em causa, o domínio do capital e a impotência dos governos.

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)
 

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