Testamento

Comovo-me ao saber que milhões de pessoas estão neste momento na longa fila de espera por uma córnea, um rim, um coração, enfim, algum órgão necessário à normalidade da vida. Por outro lado, vejo que inexistem campanhas eficientes para a conscientização das pessoas que, como eu, hoje vivo e com saúde, possam, quando vierem a morrer, doar órgãos que já não lhes terão qualquer utilidade, mas que serão preciosos aos necessitados.

Meus pais e diversos parentes já tomaram conhecimento do meu desejo. O testamento que ora faço de público, mais que um gesto simbólico e poético, é a tradução viva e real do desejo meu e de muitos que, como eu, sabem dar o devido valor à vida, à saúde e aos nobres ideais.

Um dia um médico constatará que meu cérebro parou de funcionar e que a minha vida física já não mais existe. Quando isto acontecer, não tentem introduzir vida artificial em meu corpo por meio de máquinas. Ao invés disso, doem meus olhos a um homem que jamais tenha visto o sol nascer, o rosto inocente de uma criança ou amor nos olhos de uma mulher. Doem meu coração a alguém cujo próprio coração apenas lhe cause dias intermináveis de dor. Doem meus rins para alguém que dependa de uma máquina, semana após semana, para sobreviver. Tomem o meu sangue, os meus ossos, cada músculo e cada nervo do meu corpo e descubram um meio de fazer uma criança paralítica caminhar.

Explorem cada recanto do meu cérebro e utilizem as minhas células, se preciso for, mas façam-nas reproduzir-se de sorte que um dia um jovem mudo possa gritar emocionado quando seu time marcar um gol e uma jovem surda possa escutar o barulho gostoso da chuva na vidraça. Queimem o que restar de mim e espalhem as cinzas para que o vento as leve até as florestas e as faça florescer.

Se realmente desejam enterrar algo, que sejam as minhas imperfeições, as minhas fraquezas, o meu preconceito contra o próximo. Se desejam lembrar-se de mim, façam uma ação bondosa, digam uma palavra amiga àqueles que dela precisarem.

João Batista Braga


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