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Tolerância tem limite
Prática que começa em casa e se estende aos governos
Segundo o Dicionário da Filosofia (Larousse do Brasil, 1969), entre outros conceitos, inclusive morais, a tolerância reveste-se de um fundamento mais político que religioso. Contrapõe-se, nesse plano, ao recurso à violência e à existência de delitos políticos. Basicamente, trata-se de uma tendência a admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferem de outros. Portanto, uma questão de opinião.
Também Caruso Samel, no livro Reflexões sobre os sentimentos (Centro Redentor, 2003), admite a intolerância em casos muito especiais. Por exemplo, na defesa de idéias inovadoras e renovadoras. E do espírito das leis, dos princípios e fundamentos da sociedade, apanágio de sábios, filósofos, cientistas. Lembra, ainda, que grandes autores abordaram o assunto, como Voltaire, com seu Tratado sobre a tolerância (1763), "importante obra em que combateu a rotina, o fanatismo e o despotismo da época".
Assim, ser tolerante – depreende-se – não implica tolerar tudo. Por que tolerar o pior? Por que deixar fazer o que se poderia impedir ou combater? Por que aceitar o que se poderia condenar?
Alguns filósofos consideram a tolerância uma virtude menor, necessária contudo. Na linguagem corrente, como na filosófica, impôs-se para designar a virtude que se opõe ao fanatismo, ao sectarismo, ao autoritarismo, em suma... à intolerância. Sua prática começa, de fato, em casa, no inter-relacionamento familiar. Na escala, estende-se à vida comunitária, exercício profissional, participação nas atividades sociais, políticas etc. Em nível mais elevado, chega a governos e instituições a que os povos devem tolerar, sobretudo se e quando contribuem para sua ascensão.
Tolerância tem limites. Caso contrário, estaria perdida. Daí não existir uma tolerância universal, global, uma aceitação total. Riscos e ameaças determinam esses limites, por vezes impalpáveis. Há muita coisa intolerável, moral e politicamente falando, tornada suportável ou passível de contemporização, à falta de alternativa imediata.
Testemunhamos, cotidianamente, casos de chantagem, suborno; a burocracia corrompida e corrupta; a paranóia da guerra; a barbárie. No inventário das causas, políticas oportunistas, financiamentos ilícitos que elevam incompetentes a postos decisórios, com resultados desastrosos. Respostas ineptas e fatais acabam deixando a descoberto icebergs inteiros de favoritismo, clientelismo. Exemplos recentes: a ação tardia das autoridades (in)competentes quando do furacão Katrina; a realidade latino-americana que gira na órbita do auto-enriquecimento e patronato; o relatório de quase 900 páginas oriundo do inquérito sobre as Nações Unidas, denunciando desperdício, ineficiência, corrupção, nepotismo.
Competência, honestidade, probidade, responsabilidade parecem termos fora de uso, hoje, erradicados das práticas políticas, comerciais, institucionais. Sempre e cada vez mais próximas do topo. Ao explodir dos escândalos, personificados os males do sistema por uns poucos levados ao purgatório, um saldo positivo haverá de se extrair: a exposição de uma realidade intolerável. Em qualquer parte do mundo, a qualquer tempo, a tolerância passa a ser um momento provisório, uma solução apenas passável, à espera e no esforço conjugado por tempos melhores. Ou mais justos.
Clecy Ribeiro
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