3 pesos, 3 dimensões

Clecy Ribeiro

O escândalo criado pelo comportamento do Grupo News International na Grã-Bretanha, através do tabloide News of the World, vem de prestar serviço inestimável à sociedade global: o fechamento do impresso, em 10 de julho, por decisão do próprio Rupert Murdoch, a personificação de um poder midiático deletério. E mais: traz à tona, mercê também do acesso crescente à informação, o estado atual da mídia norte-americana, em que, mais que nunca, o capital de uma casta financeira comanda o espetáculo.

Tornou-se privilégio das cadeias de televisão (o Grupo Murdoch só perde para Cox Enterprises) orquestrar o espetáculo, aliadas das grandes empresas transnacionais e seus consultores, dos quais os jornalistas nem perto chegam. De resto, estes acomodaram-se; desistem de examinar, verificar, investigar o avesso dos fatos, sobretudo das campanhas eleitorais.

PUBLICIDADE. Assim, a estrela em ascensão nos Estados Unidos é a publicidade política. Os spots políticos representavam, nos anos 1990, 3% da renda publicitária de uma cadeia comercial; hoje chegam a 20% – mostram números divulgados em The Nation. A tarifa local, em Los Angeles, de um spot de 30 segundos subiu de US$ 2 mil em 2008 para US$ 5 mil em 2010. E a qualidade? Trinta minutos de programas televisivos em período eleitoral apresentam mais publicidade política que informação. Os jornalistas contentam-se em comentar a mensagem publicitária. Quanto aos candidatos, um conselho: levantar fundos e nada dizer na mídia capaz de arrefecer esse fluxo. Os spots podem mentir livremente, ao contrário dos anúncios comerciais.

Não fez menos o News of the World. “Especializado” em escuta ilegal e pirataria, em sete anos envolveu 3 mil personalidades, dentre membros da Família Real, políticos, celebridades esportivas, militares e policiais. (Data de novembro de 2005 o primeiro pedido de abertura de inquérito, pelo Palácio de Buckingham, devido à publicação de um artigo sobre o príncipe William). Compensações financeiras em troca de silêncio e obstrução policial na investigação de assassinatos de adolescentes e atentados. Imprensa marrom ao abrigo de autoridades. Sequer exime-se o primeiro-ministro David Cameron, dado seus vínculos com Murdoch e os principais executivos do tabloide.

Bona venia à BBC e ao The Guardian, este preocupado até com a história da imprensa britânica. Foi dele que partiu a grita, agora, contra o grupo midiático Murdoch (o mais poderoso da Grã-Bretanha, salvo pela BBC). E, há um ano, divulgou exaustivo dossiê do caso WikiLeaks e o papel de seu criador, Julian Assange, no vazamento de informações militares confidenciais do Pentágono, sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque. Muitos acham vão esse esforço – a que serve? Muitos outros secundam o pensamento de Assange: “Queremos três coisas: liberar a imprensa, revelar os abusos e salvaguardar documentos históricos”.

Ceticismo marca as pesquisas da imprensa contemporânea: o poder político do dinheiro se fortalece à medida que afunda a resistência que até há bem pouco tempo a mídia fazia, em favor de um jornalismo independente e crítico.

Seria a Al Jazeera um novo peso a considerar na mídia contemporânea? Hoje tida como ator chave no processo de democratização do mundo árabe, como explicar a postura dessa cadeia de televisão (no ar desde 1995, dispõe de sítio na internet, de ampla divulgação), já dentre as principais fontes de informação internacional?

Que modelo a constitui? Parece que sua marca registrada é a prioridade aos fatos no “campo” e às imagens de violência na cobertura informativa do levante nos países árabes. Tem por ambição participar de um renascimento cultural e midiático regional. Jornalismo decisivamente engajado e combativo.

“A cadeia questiona, pelo mundo inteiro, o papel do jornalista de informação. Observador impassível ou ator engajado no processo de liberação democrática?” Esse o questionamento que se impõe, segundo Claire-Gabrielle Talon (Les Temps Modernes, maio a julho 2011). Um pluralismo editorial notável nos formatos. Recusa à censura, esmero nas análises políticas e na exigência intelectual. Para além das divergências ideológicas, a partir de 1996 a Al Jazeera plantou as bases de crítica à mídia ocidental, num discurso que encontra apoio oportuno na gama de escândalos de corrupção e manipulação político-diplomática que mancha a reputação, sobretudo, da grande imprensa norte-americana, mas leva muitas outras de arrastão.

ADAPTAÇÕES. Enfim, para os estudiosos da mídia surge como um modelo atípico. Adota diferentes formatos jornalísticos, à medida que a cadeia expande-se por outros países. São linhas editoriais distintas, permitindo discursos de verdades diversas, visando a públicos percebidos como culturalmente diferentes. Por exemplo, a versão inglesa (Al Jazeera English), com uma Redação separada e de linhas editoriais distintas.

Continua em xeque, assim, a visão que o público tem da mídia – desacreditada, falida, corrompida, venal. O acesso maior à informação deu-lhe este direito. E, quanto mais sabe, mais julga, avalia, questiona, assume posições conscientes. Continuam em xeque, também, os rumos do jornalismo. Quantos meios já desapareceram na onda que engolfa essa fusão da mídia, poder e dinheiro? Quantos sobreviverão e que deontologia e métodos prevalecerão?

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)
 

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