Um conto com mais um ponto

Tharsila Prates

Um conto popular é uma narrativa geralmente curta, criada e enriquecida pela imaginação das pessoas. A história vai sendo recontada e, muitas vezes, com alterações. Por isso, existe um ditado que diz: “Quem conta um conto aumenta um ponto”.

Recentemente, li o conto Festa no céu, uma adaptação da escritora Ana Maria Machado, publicada pela editora FTD. Aí vai, também com pequenina mudança, a versão que saiu no livro Lendas, fábulas e apólogos (volume IV), atribuída a Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores pesquisadores do folclore e da etnografia do Brasil. Curtam:

Entre as aves, espalhou-se a notícia de uma festa no céu. Todas compareceriam e começaram a fazer inveja aos animais incapazes de voar.

Imaginem quem foi dizer que iria também à festa... O sapo! Logo ele, pesadão e nem sabendo dar uma carreira, seria capaz de aparecer naquelas alturas? (Há quem diga – Ana Maria Machado, por exemplo – que, em vez do sapo, quem se exibiu todo para ir à festa no céu foi o jabuti. Mas eu não vivi naquele tempo e não posso tirar a prova.)

Pois o sapo disse que tinha sido convidado e que iria, sem dúvida. Os bichos só faltaram morrer de rir. Os pássaros, então, nem se fala.

O sapo tinha seu plano. Na véspera, procurou o urubu e deu uma prosa boa, divertindo muito o dono da casa. Depois disse:

– Bem, camarada urubu, quem é coxo parte cedo e eu vou indo, porque o caminho é comprido.

O urubu respondeu:

– Você vai mesmo?

– Se vou? Até lá, sem falta!

Em vez de sair, o sapo deu uma volta, entrou na camarinha do urubu e, vendo a viola em cima da cama, meteu-se dentro, encolhendo-se todo. O urubu, mais tarde, pegou a viola, amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu – rru-rru-rru… Nem desconfiava que levava o sapo junto com ele.

Chegando ao céu, o urubu arriou a viola num canto e foi procurar as outras aves. O sapo botou um olho de fora e, vendo que estava sozinho, deu um pulo e ganhou a “rua”, todo satisfeito.

Nem queiram saber o espanto que as aves tiveram, vendo o sapo pulando no céu. Perguntaram, perguntaram, mas o sapo só fazia conversa mole. A festa começou e o sapo tomou parte de grande. Pela madrugada, sabendo que só podia voltar do mesmo jeito da tinha ido, mestre sapo foi-se esgueirando e correu para onde o urubu se havia hospedado. Procurou a viola e acomodou-se, como da outra feita.

O sol saindo, acabou-se a festa e os convidados foram voando, cada um no seu destino. O urubu agarrou a viola e tocou-se para a Terra – rru-rru-rru...
Ia pelo meio do caminho, quando, numa curva, o sapo se mexeu, e o urubu, espiando para dentro do instrumento, viu o bicho lá no escuro, todo curvado, feito uma bola.

– Ah, camarada sapo! É assim que você vai à festa no céu? Deixe de ser confiado...

E, naquelas lonjuras, emborcou a viola. O sapo despencou-se para baixo que vinha zunindo. E dizia, na queda:

– Béu-Béu! Se desta eu escapar, nunca mais bodas no céu!...

E vendo as serras lá em baixo:

– Arreda pedra, se não eu te rebento! Arreda!

Bateu em cima das pedras como um jenipapo, espapaçando-se todo. Ficou em pedaços. Mas os outros bichos ficaram com pena do sapo, juntaram todos os pedaços, e ele voltou à vida.

Dizem que é por isso que os sapos têm o couro todo cheio de remendos.

(A autora, jornalista, é frequentadora da Filial São Paulo, SP)

Fonte: Antologia da literatura mundial; Lendas, fábulas e apólogos – vol IV; Seleção de Nádia Santos e Yolanda Lhullier Santos. Livraria e Editora Logos Ltda. SP

 

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