Um homem e seu sonho

Vitorino Chantre entrevista Sérvulo Martins Aques

A implantação do Racionalismo Cristão na Ilha do Maio, Cabo Verde, desenvolve-se tendo como principal protagonista Sérvulo Martins Agues, um de seus cidadãos e antigo militante da Doutrina. Vivendo na Holanda, visita regularmente a ilha, onde está construindo uma sede para o Racionalismo Cristão. Em entrevista a Vitorino Chantre, presidente da Filial Lombardkade, em Roterdã, Holanda, Sérvulo afirma que o dia mais feliz de sua vida será o da inauguração da primeira Casa racionalista cristã da Ilha de Maio.

Vitorino Chantre – Fale de você.

Sérvulo – Sou um humilde trabalhador, um velho rijo de 70 anos, que deu duro na vida, tanto em Cabo Verde, como aqui em Holanda, para manter a família, com honra e dignidade.

 – Disso não temos dúvida, por aquilo que conhecemos de você, ao longo dos últimos 25 anos em que, juntos nesta Filial, vimos trabalhando nesta Doutrina. Como justifica esse seu rosto de homem feliz e realizado?

Sérvulo – Tudo que sou hoje, tudo que tenho e a minha forma tranquila de estar na vida devo ao Racionalismo Cristão.

– Como assim?

Sérvulo – Em 1983, a conselho de um colega, a bordo de um barco em que trabalhávamos, escrevi uma carta ao querido mestre Antonio Cottas, certamente, uma das últimas que ele teve de responder, falando dos muitos e difíceis problemas de toda ordem que amarguravam a minha vida. Eis que, dias depois, recebi a resposta dele, em carta que está muito bem guardada. A consoladora mensagem que ela continha, trago-a sempre comigo, acalentando o meu coração e orientando a minha mente. Segui todas as orientações dele, inclusive a de freqüentar a Casa racionalista cristã que o senhor dirigia. E foi a partir daí, logo após a primeira sessão a que eu assisti, que tive a felicidade de começar a ver a minha vida normalizar-se e a se resolverem os complicados problemas que me atormentavam. 

–  A verdade é que, pouco tempo depois e devido ao seu entusiasmo, assiduidade e dedicação, integrou-se totalmente à disciplina dos nossos trabalhos, firmou a sua convicção nos objetivos superiores da Doutrina e, de mero simpatizante, passou a militante, participante das nossas correntes e membro da nossa Junta Cooperativa. O que acha de tudo isto? 

Sérvulo – Um processo de aprendizado que nunca chega ao fim. Um compromisso que tenho de encarar sempre com muita seriedade e responsabilidade. Uma dívida que, possivelmente, não conseguirei liquidar, na presente encarnação. 

– Refere-se a erros cometidos nas encarnações anteriores?

Sérvulo – Independentemente dessa realidade, estou falando de tudo aquilo que devo à Doutrina. Por mais que eu faça, viva o tempo que eu viver. não poderei pagar tudo o que tenho recebido do Racionalismo Cristão, a Doutrina que eu amo. 

– É comovente o seu testemunho de gratidão que fica aqui registrado com letras de ouro. Será por isso que se empenhou tanto em construir um edifício na sua ilha do Maio, com a mesma fachada emblemática da Casa-Chefe, para nele serem iniciados os trabalhos do Racionalismo Cristão?

Sérvulo – É o mínimo que eu posso fazer pelo tanto que tenho recebido da Doutrina de Luiz de Mattos. Foi há dez anos que consegui o terreno para a construção, e a primeira coisa que fiz foi registrá-lo em nome do Racionalismo Cristão, de forma a se constituir em patrimônio da humanidade. Portanto, não é meu, nem de meus filhos, nem de ninguém. A seguir, porque trabalhava ainda em Holanda, ia todos os anos (e são dez!) investir as minhas parcas economias, o meu tempo de férias e a quantidade de suor que me salgava o rosto e encharcava a roupa de trabalho na materialização do meu sonho. 

– Sozinho, sem a ajuda de ninguém?

Sérvulo – Tive sempre alguma ajuda. Amigos que me deram algumas horas de seu trabalho, outros que me ofereceram algum dinheiro (não muito...), sacos de cimento... Falta pouco.

– Falta pouco para quê e por quê?

Sérvulo – Ver raiar o dia mais feliz da minha vida. O dia da inauguração da primeira Casa racionalista cristã na Ilha de Maio, do lançamento da "voz" da nossa Doutrina, em que faço questão da sua presença, em companhia da sua esposa, D. Ginha. A Casa está quase pronta, só faltam as instalações hidráulica e de esgoto, o acabamento dos banheiros e pavimentação do chão, cujos custos não poderei suportar tão depressa, devido à minha condição de pensionista reformado. 

– E tem uma idéia desses custos?

Sérvulo – Acho que, com pouco mais de 2 mil euros e seis semanas de bom trabalho, resolvo a questão.

– Se é só isto, prometemos que, com a ajuda dos companheiros da nossa Filial, é já que vamos ter a Doutrina na sua querida ilha do Maio. E que surjam outros Sérvulos nas restantes duas ilhas caboverdianas, Fogo e Brava, aonde nossa Doutrina precisa ainda chegar.

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