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Um pouco daqui, um pouco dali...
Roberto Farias de Oliveira Podíamos ir tranqüilos ao cinema, era tão perto... Uma recordação agradável que me vem às vezes à mente é da época em que moramos, eu, meus pais e meus irmãos, em Campinas, entre 1955 e 1958. Tínhamos vindo de Porto Alegre, com passagem, por oito meses, mais ou menos, pela fazenda do Exército de Avelar, no Estado do Rio, pequena localidade serrana em meio à natureza, à margem da via férrea. No interior de São Paulo, outra fazenda, na estrada de Campinas para Valinhos. Hoje, há tantos anos respirando o ar da capital, percebo que foi um privilégio extraordinário passarmos a infância vendo belíssimos ocasos, manhãs perfumadas, céu despejando estrelas em noites com mínima iluminação artificial. Nesses lugares não havia ainda filial do Racionalismo Cristão. Mas meu pai, no seu jeito militar de ser pontual e disciplinado, não fazia por menos com a família: à mesa, à hora certa, dizia as irradiações com a batuta por ele mesmo aplainada, e lia em voz alta os livros doutrinários até às oito e meia, todas as noites. Íamos para a escola na carroçaria adaptada, com uns bancos, de um caminhão militar, pela estrada de terra. Após o exame de admissão, de tanta exigência na época, estudamos no Colégio Culto à Ciência, antiga instituição estadual, desde Campos Sales e outros campineiros ilustres. Depois, tornei-me professor da rede do Estado e da Prefeitura de São Paulo, e hoje vejo muitas pessoas, pela imprensa ou em conversas, criticando o descaso do poder público com a Educação. Os de minha geração, no entanto, usufruíram de escolas públicas de altíssimo nível, rígidas, é certo, mas sem restrições de qualquer espécie à origem ou condição dos alunos, orientadas a princípio pelo ministro de Getúlio Vargas Gustavo Capanema. Outra figura extraordinária foi o maestro Heitor Villa-Lobos, muito criticado por também colaborar com a ditadura do caudilho gaúcho. Por sua influência, aprendemos música de verdade na escola, na disciplina denominada Canto Orfeônico. Gerações de músicos no Brasil foram direta ou indiretamente formados com base nas propostas desse que reunia multidões para canto coral (o orfeão) em estádios. Infelizmente, tais propostas foram depois abandonadas, a partir das leis educacionais de 1971. Em 1959, a carreira militar de Manoel Oliveira nos levou ao Rio de Janeiro, e daí nunca mais saí de apartamentos. Como nossa residência era em frente ao estádio do Maracanã, pois o quartel era próximo à Quinta da Boa Vista e ao Morro de Mangueira, íamos a pé à Casa-Chefe do Racionalismo Cristão, em Vila Isabel, passando em frente à Favela do Esqueleto, onde havia uma construção inacabada. A favela foi erradicada e no local se ergue a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao cinema na Praça Saenz Peña também podíamos ir tranqüilos, era tão perto... Sob a presidência de Antonio Cottas, lembro-me de Heitor Villa-Lobos sendo doutrinado em sessão pública, no mesmo dia de sua desencarnação. Duas figuras admiráveis. Uma por ajudar a esclarecer e educar a humanidade, por meio desta magnífica Doutrina. Outra, por dar ao Brasil presença internacional no âmbito da música, dar diretrizes à educação pública do País e criar obras musicais inesquecíveis, com simplicidade, engenho e originalidade. Em 1960, viemos para São Paulo e encontramos Antonio Flor à frente da Casa Racionalista Cristã, em Santana, na Rua Francisca Júlia. Meu pai passou à reserva como major e o casal Manoel e Elba Oliveira dedicou-se aos trabalhos da Doutrina, tendo antes ajudado na formação da Filial de Porto Alegre, no início dos anos 50, junto ao esforçado portuense Manuel Joaquim Pinto. Como era tranqüila esta nossa São Paulo! Os prédios mantinham as portas abertas durante o dia, não havia tantas grades, tanto temor, tanta violência. O Rio também, mas já inspirava mais cuidado. Aqui não vivíamos isentos de riscos, é claro, mas que delícia! Quanta vida cultural num sossego de cidade do interior, que saboroso encanto provinciano nos bairros! Outra lembrança muito agradável: um colega de classe me indicou os concertos matinais do Teatro Municipal, gratuitos, aos domingos. E eu e meu irmão lá íamos, de bonde desde a Lapa, o ponto final era na Praça do Correio. Não esqueço a pianista Yara Bernette, solista do nº 4, de Beethoven, ou o João Carlos Martins, no de Kachaturian, fantásticos! Creio que aqui teria assunto para horas de conversa... (O autor é freqüentador da Filial São Paulo) |
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