Um pouco de poesia...

Prosa e verso. A prosa pode conter poesia, mas é no verso que a poesia ganha personalidade, porque se submete a condições especiais que exigem do poeta muito mais que inspiração. Assim como cada povo tem seus heróis, tem também seus poetas.

Entre os movimentos literários que privilegiaram os versos, destaca-se o parnasianismo, pelo rigor da forma e riqueza de vocabulário. Nessa escola sobressai o soneto, no formato de duas estrofes de quatro versos e duas de três. Aí estão três obras-primas de três gigantes do parnasianismo brasileiro: Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, Vicente de Carvalho e Raimundo da Mota Azevedo Correa.

A vida 

Olavo Bilac 

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;
 
No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
– A vida universal palpita e canta!
 
Vive até, no seu sono, a pedra bruta...
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, – essa harmonia que se escuta
 
Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!
 
Esperança 

Vicente de Carvalho
 
Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
 
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
 
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
 
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos
 
As pombas 

Raimundo Correia
 
Vai-se a primeira pomba despertada ...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
 
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
 
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
 
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

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