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Verso e reverso Maria Lucia Rossi de Almeida Conta José Saramago, escritor português contemporâneo, que costumava assistir a concertos num teatro. Seu espírito de observação apurado levou-o a pensar sobre o verdadeiro, quando instalado no piso superior ao camarote real. Pôde notar melhor seu adorno, uma coroa acima dele, que o distinguia dos demais. A frente dela, já conhecida, apresentava detalhes em ouro e parecia encorpada e imponente. Mas de onde ele se encontrava, podia ver o lado de trás: oco, cheio de pó e teias de aranha. A visão frontal evidenciava o símbolo da nobreza representado pela aparência rica e maciça da peça. A visão de trás dava outra impressão. O parecer a respeito de coisas, assim como de pessoas e situações na vida, parte do ângulo de visão daquele que o emite. É comum as pessoas fixarem-se na faceta que alcançam: a partir dela, analisarem, julgarem, defenderem ou condenarem. Isso é próprio do que se chama parcialidade, ou seja, atenção a uma parte do todo para fundamentar conclusões, muitas vezes sustentadas como absolutas. O absoluto existe. Pertence ao plano mais elevado, o último da escala evolutiva do espírito, quando se diafaniza no Universo e se reintegra ao Todo, de onde a partícula primordial saiu um dia, dando início à sua trajetória evolutiva e para onde retorna. O absoluto se disponibiliza nessa etapa e nesse instante. Ao ser humano, promovendo a evolução de seu espírito em plano terreno, é dado saber que existe a verdade absoluta. Mas não a conhecer totalmente ainda. Só através de estudo, empenho e determinação, de um querer forte, é possível aproximação e apropriação pouco a pouco. Vale dizer que nós, seres viventes no aqui e agora, temos acesso parcial a ela. Alcançamos o percentual relativo ao estágio de evolução em que nos encontramos. Estamos a caminho, em processo. Voltando ao caso do teatro, que ilustra a questão: se fosse solicitada descrição da coroa sobre o camarote real, não precisamos de esforço para imaginar que apareceriam diversas. Todas verdadeiras, mas parcialmente verdadeiras, relativamente verdadeiras: cada uma originada do ponto de vista de seu autor. Daí que Saramago conclui: "Para ver a coisa toda há que se dar-lhe a volta." (A autora é Militante da Filial Jundiaí - SP) |
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