![]() |
![]() |
|
Vida urbana e convivência
Clecy Ribeiro Afinal, o que marca a cidade moderna? Basicamente, sensações de desconfiança, pânico, medo, insegurança e angústias, incerteza, mixofobia, espaços vedados ou densos de conflitos novos (drogas, gangues, desastres ecológicos, violência urbana), desproteção, vulnerabilidade (ao homem e à natureza), individualismo, competição e exclusão, distanciamento. Mas, certamente, diversidade. E liberdade, progresso, resistência – o aspecto revolucionário. O que lhe confere a arte de viver com a diferença. Afinal, a civilização urbana é feita de ilusões, promessas, impasses.Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (Confiança e Medo na Cidade, Zahar, 2009), as cidades globais, desde fins do século XX, constituem epicentro das transformações em curso do moderno estilo de vida. Crescente e acelerado urbanismo gerando verticalização, políticas de controle e repressão. Cidades são dinâmicas. Destruídas, reconstroem-se. Basta lembrar a Segunda Guerra Mundial. E perduram, mesmo como repositórios de problemas, gerados por contradições locais e globais. Paul Virilio, urbanista e filósofo, traz novos conceitos sobre as tendências que se abatem sobre modernas megalópoles sujeitas a atentados terroristas. Como em Madri, Nova York, Jerusalém, Istambul, Bagdá. Reflexos no comportamento do eleitor levam ao que Virilio chama “democracia da emoção coletiva”, substituta da democracia de opinião ou da democracia representativa dos partidos políticos. Seriam os danos colaterais ao processo democrático. Passíveis de contagiar também os habitantes de cidades vulneráveis a desastres naturais, como New Orleans (furacão Katrina), Porto Príncipe (terremoto), Fukushima (tsunami seguido de acidente nuclear). E, por extensão, cidades suscetíveis de problemas sociais diretamente oriundos da superpopulação, que confina e divide (Mumbai, antiga Bombaim). Steven Flusty, arquiteto norte-americano, põe as tecnologias modernas no prato da balança pendendo para a exploração dos medos aumentados nas grandes cidades velhas. Vultosos lucros recompensam os condomínios fechados, casas pouca vistosas, “invisíveis”, com guardas armados, câmeras de controle, fossos, segregação voluntária. Do lado de fora, segregação involuntária, daqueles confinados a espaços dos quais não se permite sair. A tecnologia arquitetônica ganha também os espaços públicos. Locais desprotegidos (sem bancos, marquises etc.) constituem “proteção” contra mendigos, desabrigados. Assim, a cidade moderna agarra-se à ideia de reinventar a vida – ou a própria cidade. Acontece em Soweto e no Rio de Janeiro, de favelas. Ou na São Paulo violenta e nas cidades-gueto africanas, exemplos de espaços urbanos de exclusão. Algumas nascem de campos de refugiados, fruto do êxodo causado por conflitos internos étnicos ou, como ora no mundo árabe, da destruição por ataques aéreos forçados. Nos subúrbios de Istambul, é a especulação imobiliária que dita as mortes provocadas por sismos. Lucro incompatível com arquitetura e urbanismo, respeito e direitos humanos. Cidades internacionais constituem exemplo isolado, por suas próprias características. Genebra, no início do século XX lugar de encontro de revolucionários e conspiradores, é, hoje, lugar de encontro obrigatório da nova ordem de revolucionários, as grandes instituições econômicas. Oferta de tranquilidade também é Bonn, ex-capital do governo alemão, há anos transformada em polo da ONU. Londres, diz o arquiteto inglês Richard Rogers, é hoje uma cidade politicamente paralisada, cada vez mais nas mãos de construtores. A renovação do espaço urbano caiu vítima do avanço inexorável da globalização. Estocolmo, diz Bauman, ressente-se do excesso de planejamento das moradias comunais. Afastou os jovens para o mercado de casas particulares, semelhantes às encontradas nos piores subúrbios norte-americanos. Milão distingue-se pela integração social, com alguns problemas de degradação das áreas periféricas. Copenhague destaca-se pelo supranacionalismo. De Paris, decantada por Julio Cortázar como “um código à espera de que o decifrem”, a divisa em seu brasão insinua Flutuact nec mergitur (Flutua, mas não afunda). A socióloga e urbanista alemã Martina Löw registra em Magazin Deutschland: o grau de urbanização no país atinge 88%, e as cidades andam em clima de concorrência para atrair empresas, mas sempre pensando nas respectivas identidades. A arquitetura, aqui, pesa. É, por exemplo, fácil divisar Frankfurt, ponto de entroncamento de uma rede internacional, sem fortes raízes locais, como cidade bancária e comercial; Munique, de fundo rural, com forte flutuação; Colônia, com algo de proletário, investindo na cultura do dia-a-dia. Importam, e muito, ecologia e energia. Que o digam também Stuttgart, Hamburgo, Freiburg. Socióloga e autora, Saskia Sassen considera a cidade um instrumento para compreender os processos e transformações em curso. Na primeira metade do século XX, a cidade encaixava-se no processo de industrialização, urbanização, alienação, mas também de urbanidade. Logo, deslocaria seu ponto focal para os “problemas sociais”. Eis a cidade como local estratégico, a partir do qual entender as grandes tendências que reconfiguram a ordem social. Palco de conflitos novos (guerra assimétrica, violência urbana) e conflitos secundários (drogas, desastres ecológicos), desemboca no que o urbanista e cientista político Max Rousseau chama cidade neoliberal: a cidade pós-industrial integrada nas intercomunidades metropolitanas, um pulsar que acelera a mobilidade cotidiana. Democracia e capitalismo seriam forças de tensão pesando sobre a cidade contemporânea. Quem ganha e quem perde? Para Rousseau, os ganhadores são os que monopolizam o espaço – residencial e comercial. Sobretudo pela localização. Os perdedores são os exilados para além das juntas do fluxo; reprimem-se. O sentimento de individualismo e distanciamento contribui, barrando a prática da sociabilidade. Na cidade que ganha, os sintomas chegam com as praças, terminais de aeroportos, de estações ferroviárias e rodoviárias, polos de interconexão, avenidas, galerias comerciais. Prefeitos das grandes cidades europeias partilham esse conceito, conforme os moldes da “produção de democracia”. Na Ásia, as cidades voltam-se ao futuro, mas, na China, a urgência produz cidades “aprisionadas” (termo do filósofo Thierry Paquot), à mercê da promoção imobiliária liberal. Onde estão os confins? Tóquio, Nova York, São Paulo, México, Seul têm mais de 15 milhões de habitantes. Na esteira, as novas grandes cidades em formação começam por aí mesmo, com nomes pouco ouvidos: Xenyan, Pune, Ahmadabad. O porvir traria, em vez de megacidades, metacidades, com novas culturas urbanas, novas contradições e desafios ecológicos. A última conferência do Fórum Internacional sobre Urbanismo (novembro 2009, Holanda) acentuou a necessidade de planejamento integrado, arquitetônico e urbano, e as sequentes questões – ecológicas, sociais, econômicas, geográficas. A próxima (janeiro 2012, Barcelona) titula-se, significativamente, TOURbanISM, pois tem no turismo o foco principal, como mola propulsora de renovação e desenvolvimento. O atual mapa pouco se modificou, nos últimos anos: Europa, o primeiro local de destino, seguida da Ásia e Estados Unidos disputando. África e Oriente Médio despontam como novos destinos. Quanto ao Brasil, sede da Copa 2014 e da Olimpíada 2016, muito terá a fazer e dizer até lá sobre o futuro de suas cidades em vias de renovação. E como aproveitar o esforço para integrar-se a esse mapa, no qual ainda pouco ou nada se faz notar. (A autora é jornalista, professora das Faculdades
Integradas Hélio Alonso, RJ) |
|