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Vinte anos depois
Clecy Ribeiro Alemanha, soberana, democrata, com voz mundial, experimenta-se na política interna “Durante as cenas extraordinárias ocorridas em 9 de novembro 1989, todos viram os alemães unidos. Mas ninguém previa, então, que apenas 328 dias se passariam para que se unissem num só país". Palavras de (lord) Alan Watson, num livro precioso, The Germans, Who Are They Now? (1992, Mandarin, UK). A queda do Muro de Berlim logo recriaria, no centro da Europa, uma nação alemã poderosa, estrategicamente importante e de soberania recuperada. Vinte anos depois, o quadro político mostra avanço conservador (Angela Merkel, 2005) e uma Esquerda querendo crescer (2009). Ressurgir de um Marx (Karl), a quem se dera adeus? – indaga o homônimo Marx (monsenhor Reinhard), em livro recente. Assinala este que 73% dos alemães, hoje, consideram injusto o atual sistema econômico. O modelo da economia social de mercado, diz, deixou de ser social. A julgar pela característica motilidade alemã, arraigada no tripé metamorfose-mudança-desenvolvimento, indicaria, também, uma busca de equilíbrio. Os testes de opinião pública traduzem tensão. Pequenos partidos ganham votos. A outrora tradicional bipolaridade encerra sua história. Se, nos anos seguintes à unificação, a alguns preocupava a extrema direita, hoje um novo partido agita o espectro político: Die Lunke (A Esquerda). Resulta da fusão, em 2007, do Partido do Socialismo Democrático e da Alternativa Eleitoral Trabalho e Justiça Social. Fala-se, agora, em ressocialização, um empurrão para equilibrar uma política de cavalos de batalha, como as reformas sociais (sistema de saúde, benefícios da previdência e seguro-desemprego). Eis aí uns poucos traços gerais do governo Angela Merkel, primeira mulher – nascida no Leste – a liderar o país. The Economist a louva como "estrela mundial". Pertence à nova geração de líderes europeus e dispõe-se a manter o país com voz internacional, arena substitutiva do impasse político interno. Governa como julga método moderno: muitas iniciativas menores, nenhuma decisiva. Desfruta popularidade sólida, embora sem qualquer reflexo nos partidos coligados, ora perdendo militância. Laços históricos unem os meios financeiros aos chanceleres (primeiros-ministros). Quando da unificação, o capitalismo alemão ia de vento em popa. O desmantelamento do Leste europeu como um todo oferecia perspectivas ilimitadas aos banqueiros alemães. Em 5 de fevereiro 1990, declarava o deão da Escola Kennedy de Administração da Universidade de Harvard ao Herald Tribune: "Em linguagem de negócios, não é uma fusão, mas uma aquisição. A RFA está em vias de adquirir a RDA à base de valores e da economia dos alemães ocidentais". Dois meses antes, o escritor dissidente do Leste Stefan Heym antecipava no Financial Times: "Uma Alemanha unificada será uma Alemanha de Messerschmitdt, Mercedes e Herrhausen". O Muro levara à Alemanha do Leste um sistema econômico diferente, a princípio com algum êxito. Mas, entre outros fatores, uma fuga irreprimível para outros países do bloco contribuiria para o reverso. Ao otimismo oriundo da queda do Muro, porém, sobreveio a dor de cabeça de custos incalculados, problemas e imprevistos não dimensionados. Em meados de 1991, a República Federal já gastara 150 bilhões de marcos alemães. Alguma inflação e muito desencanto somavam-se à indiferença de alguns setores, como a força de trabalho industrial. Ainda assim, dizia-se: é uma questão de tempo. Os nomes da reunificação começam, oficialmente, com Helmut Kohl. Reunificação com lastro para a União Européia. Kohl sonhava ver novamente fechadas as páginas negras da história, e a Alemanha retomar seu lugar no concerto de nações democráticas. Lembra Alan Watson que a democracia alemã tem raízes antigas, a partir mesmo de resistência, pouco admitida, durante o Terceiro Reich. Atesta a jornada de Bonn a Berlim – reconquista da soberania. Passo irreversível de uma capital-cidade pequena de um país dividido, para uma metrópole de país unificado, hoje uma explosão cosmopolita. Esse o significado de Berlim, resposta democrática às indagações que o autor coloca na boca dos alemães – quem somos nós? – e dos vizinhos europeus – quem são eles? Já se foi o tempo em que democracia e prosperidade caminhavam pari passu, ressoam alguns. Na Alemanha, la vie en rose enevoou-se com o colapso do comércio mundial. O prolongado milagre econômico da primeira economia da Europa ressente-se: crescimento de apenas 0,3% no segundo trimestre de 2009, depois de uma contração de 3,1% no primeiro trimestre. Até o ministro da Economia, Karl-Theodor, aplaude as inesperadas estatísticas com prudência: "Não há motivo para euforia, porque estamos ainda a uma longa distância de ver a economia no nível do ano passado". "É à política, e não ao capitalismo, que incumbe a responsabilidade do bem-estar geral", prega o filósofo alemão Jürgen Habermas. Sua postura (Estado de direito, liberdade individual compatível com a coesão da sociedade, necessidade de opinião pública esclarecida e crítica) ilustra o pensamento de não permitir à política conservadora a exclusividade da simpatia aos valores democráticos. Assim, aflora não mais a questão da identidade – quem somos nós? quem são eles? No horizonte 2010-2015, o jornalista alemão Peter Linden vê o desmantelamento do Estado social, iniciado por Schröder e acentuado por sua derrota frente a Merkel (aliança CDU-SPD). Num país de Estado fraco e sociedade forte, na aclamada economia social de mercado quanto conta como mercado e quanto conta como social? Estaria a Alemanha em vias de outro confronto social, comparável ao da unificação? (A autora é jornalista) |
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