Viver

Maria Cottas

Mais um ano se vai, um ano em que se viveu a mesma vida de sacrifício, de lutas, de ilusões desfeitas, de água fria na fervura dos que teimam em conseguir alguma coisa, dos que têm ideais, dos que crêem no futuro e tudo dão para vê-lo cor-de-rosa.

Quantas vezes se pensa em abandonar tudo pelo meio, deixar de parte as boas intenções, fugir da trincheira ao se aproximarem os combates sem perspectivas de vitória!

Mas não, viver é honra e portanto devemos manter a chama, não largar o remo para que o nosso barco não soçobre, conservar muito sangue frio nos momentos difíceis e prosseguir na arrancada. Esse é o dever dos fortes de espírito.

O mundo, realmente, como está dá para isso. Tão atordoados andam os homens, com os ponteiros de seus relógios tão desacertados, que dificilmente se chega a conclusões acertadas.

Vive-se numa eterna borrasca, o céu negro, as nuvens grossas, ventos soprando forte, mar revolto, mas apesar de tudo isso a esperança de uma bonança deve ser conservada e a coragem para vencer o vento, o mar, as nuvens negras, a borrasca deve ser mantida.

Viver é honra. Vivamos, pois, ainda que tudo conduza ao desespero. Às vezes, de um ato de bravura cívica depende a paz.

Lá se vai mais um ano com as mesmas características dos anos passados. Que vejamos partir, pois, este ano como todos os outros, esperando sempre o melhor no próximo, e não o pior, pois o pessimismo não constrói coisa alguma nem modifica para melhor. É preciso, pois, para vencer na vida com honta, uma boa dose de otimismo.

Feliz Ano Novo.

(Do livro Crônicas oportunas)

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